segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

João Batista Comia Gafanhoto?



“E este João tinha as suas vestes de pelos de camelo, e um cinto de couro em torno de seus lombos; e alimentava-se de gafanhotos e de mel silvestre”.

“E João andava vestido de pelos de camelo, e com um cinto de couro em redor de seus lombos, e comia gafanhotos e mel silvestre”.

No original grego, nestas duas passagens encontramos a palavra acris e acrides, cuja tradução é a seguinte:

1º) Dicionário Grego–Português e Português–Grego, de Isidro Pereira: gafanhoto.

2º) The Analytical Greek Lexicon: locusta.

3º) Lexicon of the New Testament, de Arndt and Gingrich: gafanhoto, locusta.

A palavra gafanhoto tem uma projeção bem maior do que pensamos. Basta afirmar que o Dicionário da Bíblia, de Davis, nos informa que, segundo os rabinos, existem e são classificadas 800 variedades de gafanhotos.

O Velho Testamento usa nove diferentes palavras hebraicas para identificar os gafanhotos, porém a mais usada é acris.

Na Bíblia e na literatura contemporânea, sobre este assunto, a palavra acris sempre se refere a um inseto – o gafanhoto. Esta circunstância tem levado muitos comentaristas hodiernos a concluírem que neste relato sobre João Batista há referência ao inseto.

É também uma realidade inegável que o gafanhoto tem sido parte da dieta alimentar dos povos do Oriente Médio, desde os tempos antigos.

De acordo com as leis sobre os animais limpos e os imundos, em Levítico 11, há certas espécies de gafanhotos que são limpos (verso 22), portanto permitidos na dieta de um judeu.

Estes fatos têm levado os comentaristas, em nossos dias, quase que uniformemente à conclusão de que em Mateus e Marcos a palavra acris deva designar o inseto e não uma espécie de árvore. Mas apesar desta conclusão, desde os tempos primitivos nos foi transmitida uma tradição persistente e enfática de que apalavra acris significa outras coisas e não o inseto. Dentre estas as que mais têm sido sugeridas são as seguintes: pequenos pássaros bravios, caranguejos, lagosta, pera silvestre, ou outro fruto, bolos, vagens de alfarrobeira. Muitas destas são meras suposições, mas a que defende alfarrobeira sustenta-se numa evidência linguística e antropológica.

A alfarrobeira é extensamente cultivada em terras litorâneas do Mar Vermelho e é comum na Palestina ao norte de Hebrom.

As bolotas com as quais o “Filho Pródigo” alimentava os porcos eram as alfarrobas, conforme Lucas 15:16.

Há algumas evidências que favorecem a ideia de que os gafanhotos usados por João eram vegetais. É bom ainda saber de evidências seguras indicando que o inseto “gafanhoto” é muito pobre como alimento, portanto incapaz de sustentar uma vida humana.

Entre os primeiros a contestarem a ideia de que a dieta de João Batista incluía gafanhotos = insetos estiveram os ebionitas, um grupo de judeus cristãos da Síria, que, como os essênios, eram um tanto ascéticos e advogavam uma dieta vegetariana. Creem alguns estudiosos que os ebionitas substituíram em seus manuscritos acrides = gafanhotos por ecrides = bolos. Esta substituição teria sido feita em harmonia com seus princípios dietéticos.

Em todos os manuscritos bíblicos antigos se encontra acrides.

Os pais da Igreja de origem grega, que tinham melhor conhecimento do uso do grego bíblico, não concordavam que acris em Mateus e Marcos indicasse o inseto.

Muitos consideravam os acrides dos Evangelhos equivalentes a akrodua = frutos ou às pontas dos ramos de árvores ou ervas.

Em um sermão do ano 400 a.D., atribuído erroneamente a Crisóstomo, há a afirmação que João comia frutos da alfarrobeira – acridas botanôn. A expressão”acridas botanôn” é traduzida para o latim como “herbarum summitates“, significando as pontas ou brotos das plantas.

Os escritores gregos e seus tradutores latinos entenderam que o termo gafanhoto, usado como alimento por João Batista, se referia a um regime vegetariano.

Existe também a palavra autorizada do Espírito de Profecia explicando a dieta de João Batista:

“A simplicidade de sua vestimenta, uma peça de vestuário tecida de pelos de camelo, era uma reprovação direta à extravagância e pompa dos sacerdotes judaicos, e do povo em geral. Seu regime, puramente vegetariano, composto de gafanhotos e mel silvestre era uma censura à condescendência com o apetite e glutonaria que prevalecia por toda aparte” (Conselhos Sobre Saúde, pág. 72).

O Dicionário da Bíblia, de Davis, na página 25, ao comentar a palavra “alfarrobas”, assim se expressa:

“Espécie de alimento destinado aos porcos, que o filho pródigo desejava comer, quando se achava em terra estranha, abandonado pelos amigos de outros tempos – Lucas 15:15. A bainha das alfarrobas, Ceratónia Siliqua, também se chama bainha de gafanhoto e pão de João. É árvore formosa e sempre verde, de nove a dez metros de altura, sem espinhos e com as folhas semelhantes às do freixo. Produz bainhas em grande abundância que, às vezes, atingem a trinta centímetros de comprimento. Depois de maduras servem para sustento do gado e dos porcos, e em tempos de grande fome servem para alimento dos pobres. Da polpa das vagens ou bainhas faz-se um xarope muito apreciado”.

Conclusão

Diante das ideias expostas até aqui é fácil chegar a uma conclusão inelutável. Embora os gafanhotos fossem alimento permitido pela lei levítica; que este inseto era e continua sendo parte da dieta do Oriente Médio, à semelhança do uso dos “içás”em certas regiões do Brasil, e ainda que as pessoas pobres o comiam e comem em tempos de escassez de alimentos; cremos que os gafanhotos que alimentavam João Batista eram vegetais e não os insetos.

Livro: Leia e Compreenda Melhor a Bíblia, de Pedro Apolinário.

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